16 de abril de 2012

Espreita...




Algumas areias
De tão movediças
Conseguem atolar-se a si mesmas
No profundo raso que constroem
Ao longo de sua existência destrutiva...
Ficam ali... sedutoras
À espreita de almas descuidadas...(sonhadoras...)
Tragando todas as fomes de ânsias cruéis
Adoecidas em almas pobres, sofridas...
Atraem-se...
Os fortes sobrevivem...( nunca mais como antes, é verdade...)
As areias movediças permanecem sempre à margem
Cheias de nada
Buraco negro
Caminho sem volta a elas mesmas...
Areias...
Movem-se, escorregam pelos vãos dos dedos que selecionam
Premeditadamente
Cada vítima de suas presas
Até o profundo inferno que cavam para si...
Deleitam-se, as areias,
Com a sedução que causam...
São belas...aparentemente...
No fundo são como na superfície: vazias de qualquer benefício...
Sem viço
Só vícios...
Ocas...
Cascas vaidosas soltam das movediças...
Voam pelos ares
Com os ares que elas têm... ares de vaidade
Ares enganosos...
Estarão sempre sós...
E quem sobreviveu a esse tragar
Sempre saberá voltar...
E as areias movediças estarão lá...
Do mesmo tamanho, no mesmo lugar...

21 de fevereiro de 2012

Conto mínimo de uma vida inteira


Chegou em casa, tirou o rosto e colocou o caráter pra secar. Tomou seu banho costumeiro e enxugou bem o telhado de vidro, com cuidado para que suas pedras passassem direto por ele para atingir o vizinho. Deitou-se em sua própria consciência tão pesadamente que morreu sem nem se dar conta disso...

21 de janeiro de 2012

  

Então percebi que era tão grande que nem cabia no Universo,
e tão pequeno
que sequer preenchia
o que eu mais queria...
porque tinha a dimensão da alma de quem o sentia
mas não a extensão
do coração para o qual se destinava...







Aprisionei esse silêncio numa gaiola
para impedir que ele continuasse dizendo
tudo o que eu não mais queria ouvir...
preso ele me olhava
atirando-me lembranças gastas
que eu guardava em meu sagrado...
Nem as sabia tão velhas,
cheias de mofos e mentiras...
eu as conservava tão bem ali...
Vistas da gaiola
eram velhas e feias...
e sob a ótica da minha liberdade
eu as enxergava azuis...
As grades dividiam cada emoção em várias partes
e delas saía sangue e saudade...
eu nunca as vira assim
sentada junto à grade que me separava de mim...
Contava ao silêncio minhas histórias
alto
para ver se ele finalmente se calava e me ouvia primeiro...
ecos do nada ressoavam por todo canto
e o encanto de que eu tanto cuidava
era cinza
era pó
esvaía-se
nas dobras do tempo que escorria pelo relógio da ausência...
Eu me agarrava ao infinito ínfimo da crença,
e o silêncio ria enaltecido
de tudo o que eu fui
e não deveria ter sido...
Adornei a gaiola com minhas quimeras,
primaveras
esperas...
e aquietei-me vendo meus sonhos lá dentro, batendo asas pra lugar nenhum...

4 de janeiro de 2012

Todo dia...

É preciso ao poeta
fazer poesia
todo santo dia
porque todo dia é santo
e, todo poeta, um canto
de louvação ao sagrado que há no verso
ao reverso da nossa dor...
Verso é o nome do amor,
estrela cadente
na rima dançante
da asa do anjo que a gente se torna
quando escreve com a pena da alma
leve, pousante na lua,
no brilho da rua,
no longe que há entre mim e o mar...
entre o sim e o riso...
entre a entrega e o perigo...
É preciso fazer poesia
todo santo dia...
Navegar nesse idílio inefável
que une o poeta ao universo inteiro
que une o meu laço
ao nó do eterno que há em todo ser que ama
que canta
e se encanta por estar rimando
a cadência do respirar
com o dom de ver
e enxergar...
com o cio de ser passível de amor
e assim amar...

10 de dezembro de 2011

Leme




É preciso soltar as amarras para vir à tona,
é necessário jogar âncoras para aportar...
Cada qual sabe em que cais deseja estancar sua sede de vida
ou se içar velas ainda será e será...
Quando se está no fundo do poço,
por mais cordas que se lancem,
por mais mãos que se estendam,
somente a própria mão que está no abismo
pode a si se salvar
estendo os braços para ser tirado
ou olhando apenas
sem se permitir...
Nessa nau em que vamos,
bússolas que somos,
elegemos os mares para o qual partimos
ou a ilha da qual não saímos...
No abismo de qualquer imensidão,
no mais profundo,
criaturas escuras buscam pelo vácuo com destino ao nada...
Na claridade que permitem os espaços etéreos,
borboletas e beija-flores bailam
porque à superfície podem suas asas voar...
e ainda que estrelas só se vejam à noite
e cometas cruzem a escuridão
só podem ser belos e admirados
porque se destacam,
porque lumes são...

26 de novembro de 2011

Inerte



Viver a vida
em cova viva
solo perto
concerto solo
incerto
sons insanos
sem planos
internos
enterros etéreos
queimar os panos
quimeras planos
ventos vãos
sementes mortas
enraizadas
ao fundo do nada
um parto sem asa
de volta pra casa
sem nunca ter sido
ser em brasa...

30 de julho de 2011

Guia...







Tinha uma ponte
ao meu lado
que insistia em me atrair
Eu caminhava,
ela também
Me olhava...
Travessia lenta
entre mim
e o não...
entre o sim
e a perdição
Tinha uma ponte
apontando outro caminho
Rindo
Vindo
em direção avessa...
“Obedeça... obedeça...”
E eu não...
Meu chão ao lado
Meus pés pregados
Linha reta
Sem cessar...
Tinha uma ponte todo o tempo
Em toda minha jornada
Acenava
Seduzia
Encantava
Eu não ia
Cobiçava
Tinha uma ponte
“Atravessa
Não tropeça
Travessa...”
Avante eu ia...
Ela ao lado
Ponte infinda
Mar sem água
Vida inteira
eu passava
porque ela
me levava
e eu nem sabia...
Não era ela a margem
À margem
Eu que ia....

10 de julho de 2011

Íntimo ritmo...


Fusão
Profusão
De fora
Pra dentro
O todo
Intenso
Fusão
Em cada ponto
Tudo é canto
Pra o encontro
Fuso e pleno banquete...
Encanto
Fome e sede
Saciados são
Beber a fome
Saciando o pão
Molhando
Inteiros
O que percorre
Cada veio
Cada fresta
Dança una
Fusão...
Viagem
Sem bagagem
Plumagem
De pele e aroma
Deslizando
desejos
Acesos
Coesos
Tesos
Presos
Espontaneamente
Fusão...
Guiados
Loucamente
Estrada sem fim
Meu tom em ti
Seu som em mim...
Ínfimo fio
Nós
Em cio...

9 de julho de 2011

O que nos move


Dentro de tudo há um universo
Cometas desfilam atraentes perigos
Os olhos olham tentados
atentos ao que há de ser
Não sair da rota
nem desejar o abismo
Passos e não asas nos são dados
No céu, promessas hão de sempre estar
Na terra é que os pés hão de pisar
Limites impostos...
Se não existem asas
existem escadas
assinalando alçares possíveis
e manobras inalcançáveis
A delícia constante
de fazer o desejo
ser sempre buscado
por outros caminhos