4 de janeiro de 2012

Todo dia...

É preciso ao poeta
fazer poesia
todo santo dia
porque todo dia é santo
e, todo poeta, um canto
de louvação ao sagrado que há no verso
ao reverso da nossa dor...
Verso é o nome do amor,
estrela cadente
na rima dançante
da asa do anjo que a gente se torna
quando escreve com a pena da alma
leve, pousante na lua,
no brilho da rua,
no longe que há entre mim e o mar...
entre o sim e o riso...
entre a entrega e o perigo...
É preciso fazer poesia
todo santo dia...
Navegar nesse idílio inefável
que une o poeta ao universo inteiro
que une o meu laço
ao nó do eterno que há em todo ser que ama
que canta
e se encanta por estar rimando
a cadência do respirar
com o dom de ver
e enxergar...
com o cio de ser passível de amor
e assim amar...

10 de dezembro de 2011

Leme




É preciso soltar as amarras para vir à tona,
é necessário jogar âncoras para aportar...
Cada qual sabe em que cais deseja estancar sua sede de vida
ou se içar velas ainda será e será...
Quando se está no fundo do poço,
por mais cordas que se lancem,
por mais mãos que se estendam,
somente a própria mão que está no abismo
pode a si se salvar
estendo os braços para ser tirado
ou olhando apenas
sem se permitir...
Nessa nau em que vamos,
bússolas que somos,
elegemos os mares para o qual partimos
ou a ilha da qual não saímos...
No abismo de qualquer imensidão,
no mais profundo,
criaturas escuras buscam pelo vácuo com destino ao nada...
Na claridade que permitem os espaços etéreos,
borboletas e beija-flores bailam
porque à superfície podem suas asas voar...
e ainda que estrelas só se vejam à noite
e cometas cruzem a escuridão
só podem ser belos e admirados
porque se destacam,
porque lumes são...

26 de novembro de 2011

Inerte



Viver a vida
em cova viva
solo perto
concerto solo
incerto
sons insanos
sem planos
internos
enterros etéreos
queimar os panos
quimeras planos
ventos vãos
sementes mortas
enraizadas
ao fundo do nada
um parto sem asa
de volta pra casa
sem nunca ter sido
ser em brasa...

30 de julho de 2011

Guia...







Tinha uma ponte
ao meu lado
que insistia em me atrair
Eu caminhava,
ela também
Me olhava...
Travessia lenta
entre mim
e o não...
entre o sim
e a perdição
Tinha uma ponte
apontando outro caminho
Rindo
Vindo
em direção avessa...
“Obedeça... obedeça...”
E eu não...
Meu chão ao lado
Meus pés pregados
Linha reta
Sem cessar...
Tinha uma ponte todo o tempo
Em toda minha jornada
Acenava
Seduzia
Encantava
Eu não ia
Cobiçava
Tinha uma ponte
“Atravessa
Não tropeça
Travessa...”
Avante eu ia...
Ela ao lado
Ponte infinda
Mar sem água
Vida inteira
eu passava
porque ela
me levava
e eu nem sabia...
Não era ela a margem
À margem
Eu que ia....

10 de julho de 2011

Íntimo ritmo...


Fusão
Profusão
De fora
Pra dentro
O todo
Intenso
Fusão
Em cada ponto
Tudo é canto
Pra o encontro
Fuso e pleno banquete...
Encanto
Fome e sede
Saciados são
Beber a fome
Saciando o pão
Molhando
Inteiros
O que percorre
Cada veio
Cada fresta
Dança una
Fusão...
Viagem
Sem bagagem
Plumagem
De pele e aroma
Deslizando
desejos
Acesos
Coesos
Tesos
Presos
Espontaneamente
Fusão...
Guiados
Loucamente
Estrada sem fim
Meu tom em ti
Seu som em mim...
Ínfimo fio
Nós
Em cio...

9 de julho de 2011

O que nos move


Dentro de tudo há um universo
Cometas desfilam atraentes perigos
Os olhos olham tentados
atentos ao que há de ser
Não sair da rota
nem desejar o abismo
Passos e não asas nos são dados
No céu, promessas hão de sempre estar
Na terra é que os pés hão de pisar
Limites impostos...
Se não existem asas
existem escadas
assinalando alçares possíveis
e manobras inalcançáveis
A delícia constante
de fazer o desejo
ser sempre buscado
por outros caminhos

4 de julho de 2011

O nada...


Ela se incomodou, um dia, com o acúmulo de coisas que lhe cansavam... Resolveu limpar: desencostou os móveis, tirou as teias que se juntavam, eliminou as traças, desfez o mofo que umedecia as memórias, tornando-as sempre frescas... Pegou de um pano e foi apagando pó, retirando manchas, nódoas quase imperceptíveis, mas ela e só ela sabia que estavam lá...
Fez esse procedimento dentro de si em tudo, todo canto, cada fresta... impecável depósito onde nada ficou, nada restou, nada deixava sinais de vida... Ela seguia em sua limpeza, desinfetando o universo no qual sentia-se sufocada, atormentada, espalhando em toda parte o apagar de vestígios...
Ao fim do seu serviço, olhou em torno, buscou o conforto de observar a leveza que restara... e nada mais conseguia ver em lugar algum... nenhum parco sinal de memórias que a fizeram ser alguém um dia... Retiradas todas as marcas, ela apagou-se de existir: o peso saiu, o sufocamento extinguiu-se, a tormenta esvaziou-se e dentro do nada que sobrou, na vastidão de tanto espaço, ela se perdeu pra sempre e nunca mais se achou...

Mais


Além do passo
caminha o desejo:
gigante içador
das utopias silentes
Atento ao pódio
instigante
dos mais secretos ideais
Um passo a mais
desejo atroz
que move e eleva
além do passo
o desejo leva
empurra
avante
não permite
o esmorecer

3 de julho de 2011

Quixotesca espera...


Crença no que sempre há de ser
ainda que seja fruto de um desejo inconcebível...
Concebe-o o êxtase do alcance
A ínfima chance
já é o todo inteiro
pois é a gênese do milagre
E fundem-se, em óvulo,
a esperança e o medo do desfazer-se...
permeando a vida inteira
todo sonho que nasce
a partir do que outros não creem
E guarda-se em sigilo absoluto
o ver e o ser
o viver para conquistar
o que alguém apostou que jamais fosse...
Roda viciosa
na amarga-doce espera
de comemorar a perseverança
e não ter de dar nunca
o braço a torcer...

25 de junho de 2011

Denso...


Um encontro
Único... feito mergulho num mar de águas profundas...
Forte, perigoso e esperado
Como se fosse a maior vivência de amor possível...
Mar profundo...
Tudo intenso, tudo repleto de um ar em suspenso,
 sempre...
Nadar contra marés,
Desafiar cardumes inteiros de anseios e dores
Mar profundo
Coragem exposta... mergulho no vazio tão cheio, tão pleno...
Sem fim... sem fim.. imantado
Atração inexplicável...
Mar denso
O melhor fôlego ausente,
Paradoxo entre vida e morte a cada instante
Intenso instante
Eterno instante
Adeus constante
No infinito encontro
Mar adentro
Âmago de dois
em um
E nada após...
Mar imenso